É preciso ser tão

Difícil começar a relatar. Foram três dias de muitas emoções. Sensação gostosa de partilha, de partes e compartimentos sendo trocados e escondidos. Muita gente junta! Muita gente misturada! Em eventos como o III Ser-tão Brasil, a gente percebe que sim, é possível fazer diferente. Construir pontes novas e buscar atalhos bonitos. Bonitos como o caminho que trilhamos, todos juntos, aproximadamente 400 pessoas, até o pé do morro. Silenciosamente ouvimos os gritos ritmados e sintonizados dos irmãos Cariri-Xocó. Na pele, trazem os traços de uma cultura forte, sensível e pura. Nas palavras e olhares, nossos irmãos índios nos mostram o quanto é possível ser simples, ser de verdade, ser tão. As energias se misturam por instantes, se atrapalham, se fundem. As energias soltam as mãos e trilham o caminho de volta. As cigarras se encarregam de entoar os passos pisados e atentos de cada serzinho que passa. Tamboretes. Oficinas. Trocas. Outros entendimentos. De repente, a rotina de uma cidade muda completamente. De repente, aparecem lindas senhoras e suas ladainhas, lindos senhores com seus pilões, lindas crianças reverenciando nossa pátria-mãe Brasil. De repente, Dona Ilda me recebe em sua casa, me oferece um cafezinho passado na hora, me mostra a foto do menino que criou e me mostra também as fotos dos meninos que seu menino, agora homem, colocou no mundo. Eu sigo o caminho e carrego um pouquinho de Dona Ilda comigo. Tenho certeza que um pouquinho de mim ficou ali, naquele espaço, naquela sala aconchegante, no coração da senhora bonita que mais tarde sobe ao palco para cantar suas ladainhas. Na mesa do bar as palavras se dispersam e passeiam coloridas pela festa. São idades, são histórias, são desejos. São os jardins da cidade que nos recebem. As rosas recheadas de pétalas, o matinho rajado crescendo no chão, o papagaio colorido que diz “tchau”. È um amontoado de pequenas grandes manifestações. São as idéias fluindo pelas mentes afoitas e criativas da equipe de comunicação que brinca e absorve os momentos e também interfere neles, com força. È o debate rico no tamborete A Mídia é sua Cara? È o rap delineando as sensações compartilhadas durante duas horas dentro de uma pequena sala. Com cadeiras, com papel, com sorrisos, com críticas e alternativas. A comida no prato. As mulheres servindo aquele mundo de gente faminta. Fome. Fome de alma, de cor e de fé. Ah, como cheguei faminta ao encontro e como voltei ainda mais certa de que, sim, vou devorar o mundo. Vamos devorar o mundo. È preciso sonhar. Viver. Molhar o corpo na chuva. Seguir o cortejo cênico pelas ruelas de uma pequenina imensa cidade. Lafaiete Coutinho. A gente parte, a gente reparte e retorna, cada um na sua energia fundida, transformada em uma única e intensa pulsação. Seguem os ônibus...
Bruna Hercog
28/11/2005
Foto produzida pelos jovens que participaram da oficina de fotografia durante o III Ser-tão Brasil.

3 Comments:
Seus textos continuam lindos como sempre, hein? Ê dom!
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